Uma senhora ao meu lado comenta que ela (a estudante) “não precisa disso, pois já tem o passe estudantil”. A princípio é verdade; mas logo lembro que, quando eu tinha o passe estudantil (há já longínquos anos), teve um enorme atraso para sair, assim como demorava bastante para fazer uma segunda via, em caso de perda. Então pode ser que fosse esse o caso da jovem; não sabemos. E, em grande medida, não importa. Até aí, como dizem, “tudo bem”.
Logo em seguida, a senhora prossegue em seus comentários. (A estudante já seguiu em frente com a sua vida e não é obrigada, como nós, que estamos na fila, a escutar). Ela (a senhora que faz os cândidos comentários) “sempre foi contra haver o passe estudantil”, porque esses estudantes “estão só se aproveitando da escola para comer merenda, não estudam nada” e que “hoje em dia escola pública é isso”. Além do mais, as meninas só querem saber de “usar minissaia e se pintar” (que num antigo dialeto, quer dizer usar maquiagem).
A seguir, vem a cereja do bolo. “Depois, quando são atropelados” (porque existe o risco, mínimo, de a estudante ser atropelada por um BRT ao entrar por aquele caminho na plataforma), “as famílias querem arrancar indenização da empresa, para viver às custas dos outros”. Senhoras e senhores, eis o “querido”, hipócrita e obtuso trabalho da ideologia burguesa nossa de cada dia. Dessa vez, não me engajei em nenhuma discussão. Já fiz isso no passado. Algumas vezes adiantou para alguma coisa, outras não; em algumas, fiquei com receio de ser agredido. Mas vale a pena resumir, de forma sucinta, como seria minha resposta a esses pensamentos, ainda que como exercício intelectual.
Em primeiro lugar, deveríamos defender o “passe livre”, não apenas para os estudantes, mas para todos. O transporte (assim como saúde, educação, moradia, alimentação etc.) deveria ser um direito universal acessível a toda a população. Se estudantes e outras pessoas entram pulando pela lateral, isso ocorre porque existe uma catraca na estação (a não ser que se trate de praticantes de parkour). Nós, trabalhadores (e aquela senhora parecia ser uma moradora pobre do subúrbio), produzimos e pagamos tudo. É ridículo ter de pagar, a mais, o exorbitante valor de R$ 3,80 cada vez que nos deslocamos para algum lugar. Lembremos que há pouco mais de três anos, em junho e julho de 2013, o Brasil viveu uma revolta de massas por conta disso.
Desmerecendo o passe estudantil e a escola pública, faz-se o jogo dos chacais que querem acabar com o mínimo a que temos direito atualmente para vender esses serviços a um preço caro (aliás, no caso das máfias de transporte, aumentar a fatia do povo que vai ter que pagar). Já basta o desinvestimento (e consequente sucateamento) que os governos têm feito há muitos anos nas escolas e universidades públicas (para não mencionar as bibliotecas). O que eles querem com isso é aumentar o mercado e os lucros das empresas privadas que prestam esse serviço, garantindo que ele estará só a disposição de uma minoria pagante.
Não esqueçamos a minissaia e maquiagem. Temos aqui aquele toque de puritanismo que não poderia faltar. Será que ela estava preocupada com o desenvolvimento da jovem nos estudos? Será que acha que namorar ou se vestir de forma atraente atrapalharia a sua educação? Eu estava lá e não reparei nada demais na estudante. Inclusive, acho que ela estava de calça jeans e a senhora se referia a uma estudante hipotética. Parece que a intenção aí era meramente descarregar alguma frustração, pois não há evidência de que usar minissaia ou se maquiar torne uma estudante pior ou que “só quer comer merenda” (que, outra vez, é paga e feita pelos trabalhadores, e à qual seus filhos e filhas têm pleno direito).
Sobre o risco de atropelamento, a senhora é praticamente uma advogada das empresas de ônibus. Reparem que cada caso é um caso: não tem como tomar lado em atropelamentos hipotéticos, a não ser que os detalhes estejam claros no exemplo. Mas fica evidente um preconceito de classe ao supor que uma família que cobra indenização de uma empresa por atropelamento estaria interessada em “viver às custas dos outros”. Não parece que a senhora sabia das condições de vida da família da estudante, se esta tinha meios de vida ou não. Tudo isso são grandes incógnitas (para mim também). O que se vê por esses comentários, é que a comentarista aprendeu a repetir como um papagaio a soberba e desprezo que vem de outras fontes que odeiam pobres e trabalhadores. Que acham que todo questionamento contra empresas (que são tão boazinhas conosco, não é mesmo?), é de pessoas que querem se aproveitar.
O que fica patente é que aquela senhora vê as estudantes de minissaia das escolas públicas (e seus direitos, como o passe estudantil) como antagonistas; e as empresas de ônibus, se não como suas amigas, ao menos alguém que vale a pena defender. Tudo isso me parece bastante obtuso e distorcido. Como pode? Uma análise objetiva da situação permitiria concluir justamente o oposto. Que as empresas de ônibus milionárias, mesquinhas e corruptas, que fazem com que ela tenha que pagar uma quantia significativa por um serviço que seria viável e justo que ela recebesse gratuitamente, é que estão “do outro lado”; enquanto que os interesses dela estão muito mais próximos da estudante que gosta “de se pintar” (e também das que não gostam, tanto faz).
Uma boa pista para o porquê disso está no conceito marxista de ideologia, que pode ser porcamente reduzido na frase “As ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante” (classe essa da qual os donos das empresas de ônibus são parte). Isso, por si só, não explica nada, pois ainda não sabemos (e, provavelmente, nunca saberemos) exatamente quais foram as influências formadoras que levaram àquelas opiniões da senhora e que, concretamente, as colocam contra seu próprio interesse (supondo aqui que as pessoas querem uma vida melhor e excluindo os masoquistas). Podemos especular que isso é um resultado do trabalho constante de meios de difusão de ideias (poderia ser a imprensa, igrejas, partidos políticos, correntes do whatsapp… não sabemos) que convenceram-na dessas posições.
Não se trata aqui de achar que ela foi um “fantoche” ou algo do tipo. Claro que não, até porque é bem crescida e responsável pelo que pensa ou diz. Mas fica evidente que suas ideias ou predisposições levaram-na a “castigar” alguém que está muito mais próximo dos interesses dela, ignorando por completo o papel cumprido pelas empresas de ônibus na nossa sociedade. Isso leva a casos extremos, como o dos "capitalistas sem capital", pessoas que acreditam seriamente que são "capitalistas" por estarem em oposição aos comunistas. Nós, comunistas, defendemos tratamento de saúde público e gratuito para essa neurose: informação e educação.
Logo em seguida, a senhora prossegue em seus comentários. (A estudante já seguiu em frente com a sua vida e não é obrigada, como nós, que estamos na fila, a escutar). Ela (a senhora que faz os cândidos comentários) “sempre foi contra haver o passe estudantil”, porque esses estudantes “estão só se aproveitando da escola para comer merenda, não estudam nada” e que “hoje em dia escola pública é isso”. Além do mais, as meninas só querem saber de “usar minissaia e se pintar” (que num antigo dialeto, quer dizer usar maquiagem).
A seguir, vem a cereja do bolo. “Depois, quando são atropelados” (porque existe o risco, mínimo, de a estudante ser atropelada por um BRT ao entrar por aquele caminho na plataforma), “as famílias querem arrancar indenização da empresa, para viver às custas dos outros”. Senhoras e senhores, eis o “querido”, hipócrita e obtuso trabalho da ideologia burguesa nossa de cada dia. Dessa vez, não me engajei em nenhuma discussão. Já fiz isso no passado. Algumas vezes adiantou para alguma coisa, outras não; em algumas, fiquei com receio de ser agredido. Mas vale a pena resumir, de forma sucinta, como seria minha resposta a esses pensamentos, ainda que como exercício intelectual.
Em primeiro lugar, deveríamos defender o “passe livre”, não apenas para os estudantes, mas para todos. O transporte (assim como saúde, educação, moradia, alimentação etc.) deveria ser um direito universal acessível a toda a população. Se estudantes e outras pessoas entram pulando pela lateral, isso ocorre porque existe uma catraca na estação (a não ser que se trate de praticantes de parkour). Nós, trabalhadores (e aquela senhora parecia ser uma moradora pobre do subúrbio), produzimos e pagamos tudo. É ridículo ter de pagar, a mais, o exorbitante valor de R$ 3,80 cada vez que nos deslocamos para algum lugar. Lembremos que há pouco mais de três anos, em junho e julho de 2013, o Brasil viveu uma revolta de massas por conta disso.
Desmerecendo o passe estudantil e a escola pública, faz-se o jogo dos chacais que querem acabar com o mínimo a que temos direito atualmente para vender esses serviços a um preço caro (aliás, no caso das máfias de transporte, aumentar a fatia do povo que vai ter que pagar). Já basta o desinvestimento (e consequente sucateamento) que os governos têm feito há muitos anos nas escolas e universidades públicas (para não mencionar as bibliotecas). O que eles querem com isso é aumentar o mercado e os lucros das empresas privadas que prestam esse serviço, garantindo que ele estará só a disposição de uma minoria pagante.
Não esqueçamos a minissaia e maquiagem. Temos aqui aquele toque de puritanismo que não poderia faltar. Será que ela estava preocupada com o desenvolvimento da jovem nos estudos? Será que acha que namorar ou se vestir de forma atraente atrapalharia a sua educação? Eu estava lá e não reparei nada demais na estudante. Inclusive, acho que ela estava de calça jeans e a senhora se referia a uma estudante hipotética. Parece que a intenção aí era meramente descarregar alguma frustração, pois não há evidência de que usar minissaia ou se maquiar torne uma estudante pior ou que “só quer comer merenda” (que, outra vez, é paga e feita pelos trabalhadores, e à qual seus filhos e filhas têm pleno direito).
Sobre o risco de atropelamento, a senhora é praticamente uma advogada das empresas de ônibus. Reparem que cada caso é um caso: não tem como tomar lado em atropelamentos hipotéticos, a não ser que os detalhes estejam claros no exemplo. Mas fica evidente um preconceito de classe ao supor que uma família que cobra indenização de uma empresa por atropelamento estaria interessada em “viver às custas dos outros”. Não parece que a senhora sabia das condições de vida da família da estudante, se esta tinha meios de vida ou não. Tudo isso são grandes incógnitas (para mim também). O que se vê por esses comentários, é que a comentarista aprendeu a repetir como um papagaio a soberba e desprezo que vem de outras fontes que odeiam pobres e trabalhadores. Que acham que todo questionamento contra empresas (que são tão boazinhas conosco, não é mesmo?), é de pessoas que querem se aproveitar.
O que fica patente é que aquela senhora vê as estudantes de minissaia das escolas públicas (e seus direitos, como o passe estudantil) como antagonistas; e as empresas de ônibus, se não como suas amigas, ao menos alguém que vale a pena defender. Tudo isso me parece bastante obtuso e distorcido. Como pode? Uma análise objetiva da situação permitiria concluir justamente o oposto. Que as empresas de ônibus milionárias, mesquinhas e corruptas, que fazem com que ela tenha que pagar uma quantia significativa por um serviço que seria viável e justo que ela recebesse gratuitamente, é que estão “do outro lado”; enquanto que os interesses dela estão muito mais próximos da estudante que gosta “de se pintar” (e também das que não gostam, tanto faz).
Uma boa pista para o porquê disso está no conceito marxista de ideologia, que pode ser porcamente reduzido na frase “As ideias dominantes de uma época sempre foram as ideias da classe dominante” (classe essa da qual os donos das empresas de ônibus são parte). Isso, por si só, não explica nada, pois ainda não sabemos (e, provavelmente, nunca saberemos) exatamente quais foram as influências formadoras que levaram àquelas opiniões da senhora e que, concretamente, as colocam contra seu próprio interesse (supondo aqui que as pessoas querem uma vida melhor e excluindo os masoquistas). Podemos especular que isso é um resultado do trabalho constante de meios de difusão de ideias (poderia ser a imprensa, igrejas, partidos políticos, correntes do whatsapp… não sabemos) que convenceram-na dessas posições.
Não se trata aqui de achar que ela foi um “fantoche” ou algo do tipo. Claro que não, até porque é bem crescida e responsável pelo que pensa ou diz. Mas fica evidente que suas ideias ou predisposições levaram-na a “castigar” alguém que está muito mais próximo dos interesses dela, ignorando por completo o papel cumprido pelas empresas de ônibus na nossa sociedade. Isso leva a casos extremos, como o dos "capitalistas sem capital", pessoas que acreditam seriamente que são "capitalistas" por estarem em oposição aos comunistas. Nós, comunistas, defendemos tratamento de saúde público e gratuito para essa neurose: informação e educação.
A citação de Marx reflete o fato de que uma “ordem dominante” sempre conta com o convencimento e a passividade de boa parte daqueles que não tem o poder. Os que estão excluídos de qualquer acesso ao poder permanecem com a visão turva ou embaçada com relação ao mundo em que habitam. Quando as ideias dominantes não são mais as da classe dominante, isso reflete o começo de uma mudança de época (ou, ao menos, a possibilidade de tal mudança). Mas esse assunto fica para outro dia e outro texto....
