domingo, 16 de abril de 2017

Trailers, filmes e fãs exagerados


O cinema, além de uma arte, é também uma indústria bilionária (com tudo o que isso significa no capitalismo monopolista de hoje em dia). Os trailers são elementos de marketing necessários para atrair um público. Quero comentar sobre 3 coisas que tem me incomodado em trailers nos últimos tempos, de um ponto de vista comercial e artístico.

1. “Para que ver o filme se eu já vi o trailer?”

Algo que poderia ser evitado é revelar toda a trama do filme nos dois ou três minutos de um trailer. Não é difícil encontrar exemplos disso, como no trailer de “Exterminador do Futuro: Gênesis” (2015), que simplesmente mostra a reviravolta da história; ou no de “Batman vs Superman: A Origem da Justiça”, que mostra não só o surgimento do vilão Doomsday (que é algo que só ocorre no fim do filme), como também o aparecimento da Mulher Maravilha (foto), que teria sido muito mais interessante como uma surpresa para os espectadores.

O trailer deveria ser uma sinopse com imagem e som. Deveria mostrar o protagonista e o cenário, não o desenrolar da história e muito menos as reviravoltas ou surpresas do roteiro. Exemplos positivos disso foram “Interestelar” (2014), que não mostrou nos trailers o personagem surpresa da história, e “Star Wars – O Despertar da Força”, que manteve o suspense sobre o enredo do filme.

2. “Ué, mas o trailer me prometeu outra coisa”

Outra tendência que poderia ser evitada é a de incluir no trailer elementos que pouco tem a ver com o filme em si. Em outras palavras: tentar vender o filme como uma coisa que ele não é. Aqui, não se trata de falta de tato de diretores ou editores de cinema na hora de fazer o trailer, mas sim do dedo podre dos grandes estúdios, que se interessam pelo que o “mercado” (esta entidade fantasmagórica) estaria ditando.

Recentemente, um trailer de “Esquadrão Suicida” (2016) fez exatamente isso. Tentando surfar na onda de filmes de super-herói divertidos (que se popularizou com “Guardiões da Galáxia” e “Deadpool”), o trailer tinha um tom de ação e comédia. Na realidade, entretanto, o filme tinha um tom bem mais sombrio. Outro elemento foi a presença do Coringa, que aparece em todos os trailers e tem destaque nos anúncios promocionais do filme (foto), mas quase não aparece na história.

Uma variante disso aconteceu em “Rogue One – Uma História Star Wars” (filme que já criticamos aqui). Nesse caso, várias cenas que aparecem no trailer foram cortadas do filme – como na que a protagonista confronta um caça imperial ou quando diz a frase clichê “Eu me rebelo”. É bastante desonesto anunciar uma coisa e não entregar. Ah, eu não poderia me esquecer de mencionar "A Cabana" (que foi criticado aqui), pois todas as sinopses, posteres e trailers, evitaram mencionar o conteúdo explicitamente religioso e proselitista do filme!

3. “Minha nossa, que trailer incrível, que coisa extraordinária, fantástico, uau!”

“Star Wars – Os Últimos Jedi” estreia em dezembro de 2017 (daqui a icônicos 9 meses; uma criança pode ser concebida e nascer até lá). Nos últimos dias, foi liberado um trailer prévio do filme. Achei bacana por mostrar o tom (que vai ser melancólico e desesperançoso), mas sem revelar absolutamente nada da história. Assim como o filme anterior, “O Despertar da Força”, parece que esse vai apostar no mistério, o que é uma jogada acertada.

Quase imediatamente, uma legião de fãs começou a postar seus “vídeos de reação”, vídeos deles próprios assistindo aos trailers (veja esses exemplos aqui e aqui, com homens barbados chorando e gritando). A maioria me parece bastante forçada. Se fizessem um vídeo desses comigo, ia ser a mesma carranca parada durante os dois minutos, com meus olhinhos se mexendo um pouco para lá e para cá, e só. Outra "tendência" é fazer vídeos "explicando" o trailer, com mil e uma especulações e busca de "revelações" nas breves cenas.

Nessas horas é preciso lembrar que "é só um filme". Falando em Star Wars, apesar de ser fã, considero que alguns filmes são muito bons, mas outros são bem ruins. Então, o frenesi a respeito de um mero trailer, assim como os fãs que compraram vários ingressos com antecedência sem terem visto o filme nenhuma vez (coisa que aconteceu com “O Despertar da Força”) é algo a se repensar.

Algumas dessas pessoas estão sendo (inadvertidamente) instrumentos da campanha de marketing dos estúdios. Já outros são grupos de pessoas que claramente recebem produtos ou dinheiro para fazer propaganda. (Um dos canais que eu gosto do YouTube, Red Letter Media, tem feito vários vídeos zoando essa tendência). Portanto, é uma boa ideia evitar a empolgação desmedida e não justificada.