quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sobre o "Dia da Marmota" e nossas vidas


O "Dia da Marmota" (1993, traduzido no Brasil como "O Feitiço do Tempo") é um filme sobre um repórter, Phil (Bill Murray), que é arrogante e egocêntrico. Contrariado, ele viaja até uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos para cobrir um bizarro evento local, o Dia da Marmota.

Phil e a equipe de reportagem chegam na cidade e se hospedam em um hotel. Na manhã seguinte, acordam cedo e realizam seu trabalho, entrevistando habitantes locais. Phil deseja ir embora o mais rápido possível. Porém, em razão de uma nevasca, a equipe não conseguem sair da cidade e é obrigada a adiar a partida. No dia "seguinte", porém, Phil descobre que está "preso" também no tempo. Começa a reviver os acontecimentos do mesmo dia, o Dia da Marmota. O mesmo ocorre no dia "seguinte", e no "seguinte": Phil acorda exatamente às 6 da manhã de 2 de fevereiro, repetidas vezes, e não sabe por que ou como acabar com isso.

Depois de aceitar o fato consumado, seu primeiro instinto é "se aproveitar da situação". Phil come loucamente, bebe, rouba carros ou dinheiro, aprende segredos para conquistar mulheres etc. Chega até a sequestrar a marmota do festival (foto). Afinal, pensa, no dia seguinte acordará novamente em sua cama, exatamente do mesmo jeito e sem consequências para seus atos. Ele tenta conquistar a produtora da estação de tevê, Rita (Andie MacDowell), por meio de truques, mas a forma enganosa é sempre perceptível para ela e ele não tem sucesso.

Com o tempo, toda essa situação começa a deixá-lo deprimido. Ele comete suicídio de diferentes formas, para tentar acabar com o feitiço, mas continua acordando às 6 da manhã em sua cama de hotel no Dia da Marmota. Depois de algum tempo, entretanto, Phil começa a fazer algo diferente: usar o ciclo de tempo infinito para aprender sobre coisas e pessoas da cidade, seus problemas e como ajudá-las. Descobre, por exemplo, que no mesmo horário, todas as vezes, uma criança cairia de uma árvore, e fica sempre à espera para impedir. Pouco depois, algumas senhoras teriam um pneu furado, e lá está Phil, no local certo, na hora certa, para consertar.

Ele também passa a usar o tempo para aprender a tocar piano, fazer esculturas de gelo e dançar. Assim, torna-se uma pessoa mais feliz. Depois de muitos dias de prática (preso no mesmo dia), ele se torna uma pessoa diferente. Um dia, consegue fazer tudo tão perfeitamente quanto poderia. A pessoa que Phil se tornou consegue fazer Rita se apaixonar por ele quando ela vê seus talentos e a forma como ajuda as pessoas da cidade. Eles ficam juntos e, inesperadamente, o efeito do feitiço é quebrado.

O "Dia da Marmota" é, na opinião de muitos críticos, uma poderosa metáfora sobre nossas vidas. Enquanto estamos agindo por prazeres imediatos, quando só nos preocupamos com nossos próprios problemas, ignorando os que estão à nossa volta, nos fechamos a experiências e oportunidades, amizades e relacionamentos. Continuamos os mesmos, fechados ao mundo. É como se o tempo também estivesse "parado" para nós, como se estivéssemos vivendo o mesmo dia todas as vezes.

Na realidade, o caso é ainda pior, pois não fugimos às consequências dessas decisões como o personagem do filme. Não temos a oportunidade de fazer de novo até acertar, pois nosso tempo é limitado. A passagem do tempo pode ser simplesmente a repetição do mesmo ciclo, um dia após o outro.

Somente quando nos dispomos a aprender, ajudar os outros em seus problemas, desenvolver novos talentos etc. -- ou seja, viver para nos tornarmos (e ao mundo) melhores, é que fazemos o tempo avançar (e não apenas passar). É também assim que nos tornamos pessoas “apaixonantes” (e não apenas em relacionamentos amorosos).